sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Revista galega "Biblos"
























A encenação galega da narrativa de Pedro Miguel Rocha

Carlos Quiroga

Eis um escritor que foi decantando o seu universo narrativo para um pano de fundo com preferência pela nossa geografia, e não só, a ganhar todo o protagonismo desde os mesmos títulos. Nos três livros publicados, rumou de início para África com Juntos Temos Poder (2009), mas em seguida se voltou para o norte com Chegámos a Fisterra (2010), para redundar com O Eremita Galego (2011).

Pedro Miguel Rocha nasceu no distrito de Viseu (Vouzela, 1973) e formou-se na Universidade do Minho, Ensino de Português e Inglês. Realizou uma Pós-Graduação em Ciências Documentais na Universidade Católica e ingressou no Mestrado em Estudos Portugueses da Universidade Nova de Lisboa. Reside atualmente nesta cidade, onde é professor, revisor de texto para a Porto Editora e investigador. Em 2010 foi finalista do Prémio Literário Esfera das Letras e no ano a seguir venceu o Maria Ondina Braga com O Eremita Galego. Chama desde logo a atenção o uso informado do universo cultural galego na sua construção narrativa e admira que esta não tenha pretensões pirotécnicas. As suas histórias, com muito diálogo e desafetação descritiva, facilitam o seguimento de intrigas capazes de seduzir um público amplo. E com toda certeza o deste lado do Minho.

*

01.
– A estréia com Juntos Temos Poder apresenta um cenário africano que em nada fazia prever as escolhas posteriores. Foi este livro produto de uma experiência pessoal?

Na verdade, não. Já fui voluntário, mas só em Portugal. A opção por um cenário de sofrimento extremo, como um campo de refugiados postado num abandonado local do Norte de Moçambique, foi intencional, tendo em vista a potencialização do cerne da mensagem que pretendia transmitir.
Indignado com o egoísmo, com a indiferença generalizada e com o excesso de materialismo que carateriza (ou caraterizava em 2009) as sociedades ocidentais, resolvi criar um enredo que confrontasse, diretamente, os leitores com as dramáticas carências em que vivem inúmeros irmãos do hemisfério sul deste planeta.
Contudo, apesar do mencionado cenário de decadência humana, Juntos Temos Poder é um livro carregado de sonhos e de utopias, que espero que leve as pessoas a acreditarem num mundo bem melhor do aquele em que vivemos atualmente!

02.
– Apesar de aparente divergência creio que há muita proximidade entre todos os teus livros. Refiro-me a estratégias narrativas, constantes ideológicas, personagens como por exemplo o médico português que perde a sua esposa no primeiro e o professor universitário do terceiro, etc. Existem paralelos entre Cristóvão Santos e Jorge Barros, há um mesmo coração por trás, escreve-se sempre o mesmo livro?

Creio que não se escreve sempre o mesmo livro, mas, de facto, está por trás o mesmo autor e este pode considerar que ainda não esgotou determinadas temáticas. Há questões que dominam as minhas preocupações enquanto cidadão empenhado em tentar melhorar o mundo e penso que estas voltarão recorrentemente aos textos que escrevo através da voz das diferentes personagens que vou criando.

03.
– Foi a localização e autoria do livro que procura o Chris de Chegámos a Fisterra que te levou aos cenários galegos? Foi a tua aproximação prévia à cultura galega que levou tudo isso para a tua escrita?

Antes de dar vida ao Chris de Chegámos a Fisterra, em 2010, já me tinha aproximado da cultura galega. No meu primeiro livro, uma das personagens, a enfermeira Dulce, é galega e o enredo do Juntos Temos Poder passa, numa parte final, por Santiago de Compostela. Essa aproximação aconteceu no final dos anos noventa, depois de ter estudado língua e cultura galega na Universidade do Minho. Descobri, a partir daí, que me sinto um cidadão português de alma galega, verdadeiramente apaixonado pelos encantos da terra que alberga uma parte da minha essência espiritual.

04.
– Personagens idealistas, padecimento existencial, valores de solidariedade, há talvez uma espécie de humanitarismo e uma visão utópica que percorre toda a tua obra? Existe alguma pretensão neste sentido?

Não existe nenhuma intenção deliberada nesse sentido. Acabou por acontecer naturalmente, uma vez que a minha obra espelha, em várias latitudes, a minha própria alma. Sou uma pessoa sonhadora, utópica, idealista e empenhada nas causas em que acredito, portanto os meus livros acabam por ser o reflexo de todas estas minhas utopias que me transportam para sonhos que eu gostaria imenso de ver concretizados.

05.
– Sem diminuir o utopismo, antes talvez ampliado em metáfora mais universal, em Chegámos a Fisterra o enredo digamos que policial cobra no entanto toda a centralidade. Está no thriller a via mais eficiente de prender o leitor, e inclusive levá-lo a refletir sobre assuntos mais sérios?

Houve, realmente, uma vontade expressa de prender o leitor através dos habituais ingredientes do thriller e, igualmente, uma vincada necessidade que sentia de contrapor pessimismo e realismo a todas as minhas utopias. Queria deixar claro que os sonhadores pagam, num mundo pragmático e duro, um preço alto pelos seus sonhos e que, infelizmente, regra geral, são as pessoas mais frias, objetivas e insensiveis que chegam aos mais altos cargos.

06.
– O candidato a escritor e a desatenção das editoras apenas pendentes da possibilidade de lucro está na raiz argumental de Chegámos a Fisterra. Também o protagonista de O Eremita Galego abriga ambições literárias e até vai a Paris com a pretensão de um prólogo do seu escritor favorito. Foi o teu trabalho no meio editorial como revisor de texto que te deu essa visão crítica do meio?

Foi mais a minha experiência pessoal enquanto escritor, pois não é fácil um autor desconhecido entrar no mundo editorial. Hoje, então, cada vez menos. Com todas estas dificuldades financeiras em que vivemos, reconheço que as editoras não podem correr grandes riscos e a solução mais segura passa, mesmo, por apostar, quase em exclusivo, nos escritores facilmente reconhecidos pelo mercado.

07.
– São os prémios o melhor modo de ultrapassar barreiras e entrar no campo literário?

Não necessariamente e depende, também, obviamente, dos prémios de que estamos a falar. Prémios de grande visibilidade, como o Prémio Saramago ou o Leya, em Portugal, colocam, de imediato, os seus autores na ribalta durante uns tempos. Se a sua obra for consistente acabam por permanecer no mercado, mas outros, como já aconteceu, acabam por se desvanecer no contexto editorial e deixam de ser uma referência. Há, também, pelo contrário, muitos autores que têm sucesso sem terem ganho qualquer prémio.

08.
– Tendo passado por essa experiência, achas que servem de algo os Cursos de Escrita Literária para se tornar um bom escritor?
Sinceramente, não. Fornecem algumas ferramentas teóricas interessantes, que podemos aplicar no momento da criação, mas não fabricam escritores. Acredito mais na inspiração de cada um, na riqueza e multiplicidade de experiências que se carrega e na profundidade daquilo que se tem para transmitir aos leitores.

09.
– A fluência da escrita é sem dúvida uma das características da tua narrativa, que choca com a historicamente elevada elaboração da narrativa portuguesa. É uma pretensão pessoal de clareza, é uma procura de público alargado, é a marca da tua geração?

É um facto que escrevo, claramente, para um público alargado. Nunca tive a intenção de perder horas a trabalhar exaustivamente o texto para que este possa ser “literário” e para que satisfaça os requisitos mínimos de qualquer grupo restrito de pessoas cultas. Escrevo para “todos nós”, digamos assim, porque tenho muitos sentimentos para partilhar com quem me quiser ler, muitas ideias, críticas, projetos, sonhos e infindáveis utopias para colorirem este mundo, atualmente acinzentado por alguns políticos, tecnocratas e especuladores.

10.
– Esgotaram-se personagens, referentes e cenários galegos ou voltarás revisitar tudo isso nalgum outro romance? Há novos projetos literários em vista? Guardas outros livros na gaveta?

Não, de todo! Não há, até agora, um único livro meu que não tenha a Galiza como cenário e assim vai continuar a ser sempre. No próximo, Contos Peregrinos, que será publicado em maio de 2014 e que será apresentado na próxima edição da Feira do Livro de Lisboa, incluo três textos dedicados à Galiza, os quais contarão com posfácios de três personalidades galegas: Armando Requeixo, Carlos Quiroga e Séchu Sende.
Na gaveta, à espera de tempo para o poder terminar, está O Enigma de Pontevedra, sem, para já, qualquer data prevista para a sua publicação.

In Revista Biblos, (Corunha), janeiro de 2014, pp. 28-29

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